Pessoas Imprevisiveis#2 - Ana Abreu

Cada vez o cancro me assusta mais confesso.
Se calhar por estar mais velha,
se calhar por ter tido tantas pessoas á minha volta que passaram pela situação.
Achei que falar sobre o cancro este ano não fazia sentido
não fazia sentido porque mais ou menos a meio de 2016 apareceu-me uma fotografia no meu feed de notícias que me fez pensar muito sobre a vida



e a partir daí, não hesitei em pedir a Ana Abreu que desse o seu testemunho de força, de coragem, de acreditarmos em nós próprios, de nos rodearmos do amor da família e dos nossos que conseguimos tudo, até vencer a maior das batalhas da vida: o cancro.
Emocionou-me muito ler as respostas da Ana, mas não seria de outra maneira
emociou-me ainda mais a Ana mandar-me uma mensagem e dizer que tinha uma coisa para partilhar e eu partilho porque fiquei feliz da vida : os marcadores tumorais desceram a grande velocidade!


Mil vezes obrigada Ana, espero consigamos chegar a muitas mulheres, a muitas meninas mulheres. A nós!

Quem é a Ana Abreu?
A Ana é uma jovem mãe de 29 anos (28 anos na altura do diagnóstico), sem vícios e com uma vida supostamente saudável, mulher, mãe, professora de profissão, ambiciosa, feliz por natureza e com uma enorme sede de viver. Em abril de 2016, após regressar ao trabalho depois de 6 meses de licença de maternidade, fui surpreendida com um cancro da mama. Um tumor raro (triplo negativo) e bastante agressivo na mama esquerda, veio mudar-me a vida.

Como foi a sensação de te confrontares com a ideia de poderes ser finita?
Após uma notícia destas a primeira coisa que te passa pela cabeça é mesmo essa, o facto de perceberes que podes ser finita. Talvez por o cancro ainda ser um tabu, mesmo nos dias que correm, em que qualquer um de nós vive ou viveu bem de perto com ele.
Felizmente a ideia de que tudo pode acabar, durou pouco tempo dentro de mim, na verdade pouco mais de trinta minutos. Cedo percebi que só havia um caminho, a cura. Ter um filho com 7 meses (na altura) que quero ver crescer junto do meu marido e o facto de ser tão nova, foram os principais motivos que me levaram a lutar sempre e nunca desistir.

Como foi viver com o cancro?

No dia em que soube, fiquei com medo, como muito medo. Sou uma jovem de 28 anos com muitos projetos de vida e de repente não sei como é o futuro, ou se ele vai existir. Depois desse primeiro impacto depressa percebi que tinha que agir, levantar os braços e começar a lutar. Horas depois de saber o diagnóstico, eu e o meu marido (entretanto no meio disto tudo casámos) decidimos que não sairíamos do hospital sem exames marcados para que rapidamente começasse os tratamentos. Lembro-me que tínhamos (falo no plural porque o meu marido foi sempre o meu companheiro, tanto nas sessões de quimioterapia como em todas as consultas) o primeiro tratamento agendado para oito dias depois do diagnóstico. Nesse período o meu objetivo foi rapidamente acelerar o processo, ou seja, os exames que tinha para fazer amanhã deviam estar feitos ontem, os resultados que devíamos receber, em condições normais dentro de três dias, teríamos que os receber no dia seguinte. Felizmente correu tudo como projetámos e conseguimos começar a quimioterapia dois dias antes da data prevista. Senti que essa foi a primeira vitória… Não foram dias fáceis, seria hipócrita se dissesse o contrário, contudo a cada dia que passava sentia-me cada vez com mais força e vontade de viver. Não deixei de fazer as coisas a que estava habituada. É óbvio que tinha mais limitações, pelo que nem sempre tinha a mesma disposição, no entanto continuei a sair com os amigos, a jantar fora com o marido, a passear com o filho… A única coisa que tive de interromper foi o trabalho, uma vez que dou aulas numa escola em Leiria, e conciliar tratamentos, bebé e estar a 200km de casa e longe da família, era completamente incompatível.
Portanto posso dizer que viver com cancro não foi assim tão difícil, basta aceitar, confiar e seguir em frente. 

A tua força surgiu, como foi conseguir tanta força? O truque?
A minha força surge ainda no dia em que soube o diagnóstico de que tinha cancro da mama. Esta força surge no momento em que percebes que tens que ser tu a confortar os teus-mais-queridos. Parece contraditório, mas fui eu que ia apaziguando as coisas, era eu que dava força quando supostamente deveria ser ao contrário. Como já referi, o facto de ser tão nova, de ter um bebé que precisa de mim todos os dias, deu-me uma força interior brutal. Penso que não há “truques”, há sim uma vontade imensa de viver sem que nos tenhamos que estar sempre a lamentar ou questionar “porquê eu?”.


Os tratamentos, fala-nos sobre eles...
Logo no primeiro dia, o meu médico, depois de me ver assustada com o nome “quimioterapia” fez questão de me fazer ver as coisas como elas na realidade são. O inimigo é o cancro, a quimioterapia é a ferramenta de combate. Levei sempre estas palavras muito a sério… 
Para mim os tratamentos não foram assim um “bicho-de-sete-cabeças” como se costuma dizer, talvez porque sempre tolerei tudo muito bem. Os dois primeiros dias “pós-quimio” sentia-me mais cansada e com menos paciência, no entanto nunca perdi o apetite nem tive vómitos (como a maioria das pessoas). Daí, para mim, não ter sido o tal “bicho-de-sete-cabeças”.
Um estilo de vida pouco sedentário aliado a uma boa alimentação são essenciais para suportar a quimioterapia. Com os tratamentos comecei a ter mais cuidado com a alimentação. Pus de lado uma coisa que adorava, os doces (esta parte foi tão difícil para mim). De todo o processo foi isto que mais me custou, confesso que custou mais do que rapar o cabelo (risos). Bem e por falar em cabelo… quando o médico me falou em ter de fazer quimioterapia lembro de pensar “e agora, o meu cabelo?”. Para nós mulheres é bastante complicado esta parte, pois o cabelo faz parte da nossa feminilidade, mas depressa esse pensamento se dissipa quando no fundo o que queremos é a cura. O cabelo cresce e quando voltar a crescer, cresce com muito mais força, garanto-vos.
Terminados os tratamentos de quimioterapia fui operada, fiz mastectomia radical modificada, pelo que fiquei sem a mama do lado esquerdo. Nem isto me abalou, pois facto de saber que vou ficar (ainda não fiz reconstrução) não com uma, mas com duas mamocas como novas é maravilhoso (risos). 
Depois de recuperar da cirurgia, voltei a fazer mais quatro ciclos de quimioterapia, uma vez que tinha um gânglio da axila afetado. Esta QT de 2.ª linha, como os médicos lhe chamam, não foi tão fácil de suportar como a primeira. Não que me sentisse mal, mas porque estava a ser demasiado tóxico para o meu organismo. Numa semana baixavam os glóbulos vermelhos, noutra os leucócitos. Contudo, tudo se passou…
A fase seguinte foi a radioterapia, que foi “peanuts”. A única coisa que incomoda é o facto da pele ficar muito queimada na zona irradiada, como se tivesse estado ao sol a torrar na hora de mais calor. Muito biafine duas/três vezes ao dia e beber muita água ajuda a hidratar e a coisa passa. 

Agora que o principal acabou, a rotina dos exames assusta-te?
A rotina dos exames assusta-me, não pelo facto de os ter que fazer, mas pelo resultado que possa surgir. Penso que quem trava uma batalha destas tem sempre medo do resultado dos próximos exames. Comigo ainda é tudo muito recente, ainda não fiz novos exames para saber como estão as coisas. Daí ainda viver muito “à sombra” do que se passou e, por isso, com medo do que me espera, mas quero acreditar muito que vai estar tudo bem.

Que conselhos dás a outras mulheres que passam pelo mesmo?
Em primeiro dizer-vos que nunca desprezem qualquer sinal que o vosso corpo vos dê. Toquem-se no banho, ao vestirem-se, peçam aos vossos maridos/ namorados, mas toquem-se para que as coisas não evoluam. Em segundo pedir-vos para aceitarem, por mais difícil que seja, só depois de aceitarem vão conseguir encarar tudo com leveza. Aceitem, acreditem e confiem…

Senti que a familia foi fundamental em todo o processo. Barafustavas com eles, ou estava sempre "tudo bem"?
A família foi fundamental ao longo de todo o processo, sem o apoio da família teria sido tudo diferente e nisso sou uma sortuda, pois tenho comigo uma família encantadora que me ajudou muito nesta fase. Para além da família de sangue, tive também a família que escolhi para a vida, os meus amigos, bem como a família que ganhei na CUF Descobertas ao longo deste capítulo. Médicos, enfermeiros, auxiliares, assim como todos os que partilharam comigo as suas histórias, todos eles foram incansáveis e muito importantes para mim, fizeram-me sentir sempre muito especial.
É lógico que como em tudo na vida há dias bons e menos bons. Dias em que parece que acordamos zangados com o mundo…mas isso não nos dá, ou não devia, dar o direito de “barafustar” com quem está sempre do nosso lado. Claro que tive dias que “barafustei”, que sentia que ninguém me conseguia compreender, pois era no corpo que tudo estava a acontecer, era eu que sentia tudo na primeira pessoa. Contudo, após refletir depressa percebia que não estava a ser justa, pois quando adoecemos a nossa família, os nossos, adoecem connosco.



Qual a principal lição? Que conclusão tiraste deste processo, desta guerra?
A maior lição que tirei deste processo foi que o Amor é a arma mais poderosa que podemos ter. Nunca se esgota e é capaz de mover montanhas, de curar tudo… até um cancro agressivo como o meu. 
Quando recebi a notícia que tinha cancro da mama, após o choque inicial, decidi que iria lutar até ao fim. Pouco sabia sobre a doença, sabia que não seria uma batalha fácil de travar, apenas tinha a certeza que a palavra desistir não faria parte do meu vocabulário. 
Mesmo sabendo que a palavra desistir nunca andaria de mãos dados comigo, se não transbordasse amor à minha volta seria mais complicado lidar com toda a situação. 
Um cancro muda para sempre a vida de uma pessoa, não só pelas cicatrizes que deixa, mas pela forma como passamos a ver a vida.
Com todo este processo comecei a saborear a vida com, ainda, mais vontade. Comecei a gostar tanto dos dias frios e curtos do inverno, como dos dias longos e quentes do verão. Comecei a gostar mais do meu corpo, a apreciar cada marca que ficou desta luta. Afinal foram estas marcas que fizeram parte da minha luta, por isso só tenho que me orgulhar delas...

Ana Abreu 4/2/2017




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11 comentários

  1. Miúda és uma grande mulher... Continua sempre com essa força e garra... Deixaste me toda arrepiada... muitos beijinhos

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    1. é verdade a Ana Abreu é realmente uma grande mulher, foi um prazer enorme poder mostrar um pouco dela e da história mesmo, porque acho que é um ENORME exemplo para todas/todos.

      beijinhos

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  2. Muito bom o que escreveste à cerca da teu cancro da mama. Falaste de ti e da tua relação com a Vida com mta lucidez! Sim o Amor é FUNDAMENTAL à recuperação! temos que ser importantes para nós próprias,mas sentir que somos importantes e amadas tb pela familia e pelos amigos é o suporte fundamental! Ainda bem que a familia e os amigos têm recursos incalculáveis! PARABÉNS,por teres podido descobrir o caminho!

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    1. Quando fiz as perguntas à Ana Abreu , o objetivo era esse, era falar sobre a pessoa que é e sobre a forma que a levou a ganhar forças que muitas vezes nós não sabemos que existem mas que ganhamos sempre!

      o AMOR é uma das peças-chave-da-vida é verdade, e é muito importante parar, por um minuto que seja e pensarmos primeiro em nós e depois nos outros porque se nós não tivermos bem, não conseguimos passar aquilo que queremos para os nossos! O caminho é feito de pedras, umas dá para pisar e seguir em frente, outras temos de as apanhar e tirar do caminho. Eu acho que à Ana aconteceu isto, teve de pegar na pedra e com toda a força tirã-la do caminho!

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  3. É fantástico a força que ganhamos perante estas situações. Há quase 1 ano descobri que tenho um nódulo no peito, felizmente benigno, mas há sempre aquele bichinho que me corrói o estômago quando vou ás consultas de rotina.

    Beijinhos!
    http://ourhouseisablog.blogspot.pt/

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    1. é verdade Vanessa é mesmo, eu não sei onde as pessoas muitas vezes ganham esta coragem, mas ganham é certo
      isso é o medo. o medo é mesmo assim é sinla que está VIVA.
      A Ana deu um grande testemunho.

      beijinhos

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  4. Anocas, és sem dividabuma Grande Mulher! E tenho a certeza que darás sempre a volta por cima �� Os quebre conhecem, irão ontinuar a passar-te muita energia positiva ���� Grande beijinho. Sofia Feijão da Silva

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  5. A Ana é uma guerreira, as Anas são umas guerreiras...
    Estou a passar por tudo também.
    Ana Abreu já a alguns meses que me vêem falar de ti
    e hoje ao ler tudo isto sei porque.
    Brevemente irei falar contigo.
    Só posso dizer: VAMOS CONSEGUEI SOMOS MAIS FORTES QUE ELE

    Ana Cesteiro

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